domingo, 8 de janeiro de 2012

O Testemunho de Paulo sobre Jesus Cristo

Em nossa apresentação [anterior] sobre o testemunho do Novo Testamento a respeito da divindade de Jesus Cristo, chegamos somente até os evangelhos. Mas, agora, é necessário considerar também outros livros do Novo Testamento, especialmente as epístolas de Paulo.
A razão pela qual as epístolas de Paulo são especialmente importantes nesta conexão é que, nelas, podemos achar um ponto em comum em que possamos encontrar nossos adversários em debate [sem agressões], com os que negam a divindade de Cristo (opondo-se à religião cristã), pois praticamente toda crítica literária séria, hoje em dia, admite que as principais epístolas de Paulo foram realmente escritas pelo homem cujo nome elas contêm.
No caso dos quatro evangelhos não é tão fácil encontrar um terreno em comum com os oponentes; contudo, não pretendemos, também, desistir da esperança de encontrá-lo. Tentaremos mostrar que existe uma certa quantidade de concordância, até mesmo em relação aos evangelhos, entre os que são amigos e os que são inimigos do Cristianismo. É universalmente admitido, por historiadores confiáveis, que a descrição de Jesus feita nos evangelhos apresenta o quadro real de uma pessoa histórica.
Tentamos apontar certas consequências importantes, que provêm desta admissão. Mas, antes de tudo, o terreno que podemos encontrar com os oponentes, mesmo no campo dos evangelhos, não é tão amplo.
Em particular, existe uma discordância com relação às questões do que é conhecido pela “crítica literária”. Por exemplo, existe discordância em relação à autoria, à data e ao valor histórico de cada um dos evangelhos. Portanto, se começarmos assumindo que qualquer um dos evangelhos foi escrito pelo homem cujo nome vem anexado a mesmo, na opinião da igreja, imediatamente seremos acusados de iniciar uma disputa. A visão tradicional da autoria destes quatro livros é disputada pelos nossos oponentes, nesse grande debate.
Então, lembrem-se que não acho ser isto corretamente disputado. Desejo, perfeitamente, defender a visão tradicional da autoria dos evangelhos. Imagino ser muito importante defendê-la, com sucesso. Correta ou incorretamente, a visão tradicional da autoria dos evangelhos é disputada pelos críticos modernos.
Por outro lado, sobre as epístolas de Paulo não existe tal disputa. Até os críticos mais cépticos - exceto alguns extremistas, que não representam grande influência sobre o pensamento moderno - admitem que as principais epístolas de Paulo foram escritas pelo Apóstolo Paulo, na primeira geração da igreja cristã.
Esta admissão é, realmente, muito importante. Por isso, também acho ser muito importante que usemos todo o nosso esforço no sentido de conduzir os oponentes do evangelho a que eles aceitem as palavras de Paulo a respeito de Cristo. Como podem ver, não consideramos, com grandes preocupações na alma, as pessoas que diferem de nós, como sendo nossos inimigos. Ao contrário, ansiamos por ajudá-las.
Conhecendo algo sobre as limitações de nossas próprias vidas, ansiamos por ajudar os outros a saírem da miséria espiritual e vale a pena
achar um ponto em comum, em que possamos encontrar nossos adversários em debate [sem agressões], a fim de, mais tarde, podermos conduzi-los a que aceitem as coisas em que eles discordam. Desse modo, será bem-vindo o fato de que os amigos e inimigos do Cristianismo estejam de acordo em aceitar que as principais epístolas paulinas foram, realmente, escritas pelo Apóstolo Paulo.
O homem, Paulo, que escreveu essas epístolas foi contemporâneo de Jesus. Isso pode ser visto nas próprias epístolas, porque Paulo, na Epístola aos Gálatas, afirma que ele mesmo havia se encontrado com o irmão de Jesus, tendo fiado muito claro que esse encontro aconteceu, pouco tempo depois da morte de Jesus. Paulo passou 15 dias, conforme o capítulo 2, com Pedro, o qual pertencia ao círculo mais íntimo dos amigos de Jesus e, ao mesmo tempo, também, com Tiago, o irmão de Jesus. O contato com os mesmos homens também foi estabelecido, logo depois, com João, o qual, como Pedro, pertencia ao círculo mais íntimo dos amigos de Jesus. Barnabé e Silas, os quais, conforme o Livro de Atos, vieram da primeira igreja de Jerusalém, também estiveram com Paulo durante longos períodos de tempo, nas viagens missionárias. Conquanto seja objetado que o nosso conhecimento sobre esta conexão original da Igreja de Jerusalém derive apenas do Livro de Atos, e não das epístolas de Paulo, tem sido geralmente aceita a base histórica e concreta desses detalhes pessoais no Livro de Atos, como, provavelmente, admitida pela maioria dos críticos. De qualquer modo, está perfeitamente claro, em vista de todas as condições da vida de Paulo, que ele teve abundantes contatos com os que conheceram Jesus, quando Ele esteve na Terra.
Portanto, o testemunho de Paulo sobre Jesus é um assunto da mais alta importância para cada historiador cuidadoso, que esteja interessado no início da Igreja Primitiva. E tão importante também é que indaguemos qual o tipo de pessoa que Paulo achava que Jesus havia sido. A resposta a esta pergunta é muito surpreendente para qualquer pessoa que trate do assunto, com analogias comuns em sua mente, visto ficar imediatamente claro, de uma vez por todas, que Paulo considerava Jesus de um modo por demais extraordinário. Ele O considerava como uma pessoa sobrenatural, comportando-se diante de Jesus do mesmo modo como se estivesse diante de Deus.
É verdade que ele fala de Jesus como um homem. Porém, quando ele assim o faz, podemos observar que ele se refere a algo extraordinário, algo inesperado em alguém, que fosse apenas um homem. O que é mais importante na maneira como Paulo se refere a Jesus é que ele o coloca ao lado de Deus.
Desse modo, no início do Livro de Gálatas, por exemplo, Paulo escreve: “PAULO, apóstolo (não da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos)...”(Gálatas 1:1).
“Nem por homem algum, mas por Jesus Cristo”, pois o homem é uma coisa e Cristo é bem outra. Ele está [infinitamente] acima de todo homem, pois está colocado ao lado de Deus o Pai. Poderia haver um testemunho mais claro sobre a divindade Cristo? Em pelo menos um lugar, Paulo aplica a Jesus Cristo a palavra grega (Theos) que no Inglês é traduzida como Deus. Refiro-me a Romanos 9:5, onde ele diz: “Cristo... o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amém” Tem havido tentativas para evitar que a palavra “Deus”, nesta passagem, esteja se referindo a Cristo, porém é por demais duvidoso que essas tentativas sejam bem sucedidas. Conforme a clara construção das palavras, que se encontram em qualquer outro caso, estas deveriam ser consideradas por qualquer leitor como um assunto resolvido, ou seja, que Paulo, aqui está chamando Jesus de “Deus”.
Claro que, ordinariamente, ele não usa esta palavra, quando se refere a Cristo. Em geral, ele não aplica a Cristo a palavra comumente traduzida como “Deus”, nas Bíblias inglesas, mas, e daí? Ele aplica constantemente outra palavra, que pode ser claramente designada para a divindade, isto é, “Lord” = Senhor). Esta palavra tinha, realmente, o seu uso na vida comum, designando o senhor de escravos, ou coisa igual. Mas, também, era muito usada no contexto religioso – e, o que é mais importante - é a palavra usada no texto grego do Velho Testamento (que era a forma bíblica empregada por Paulo), para traduzir a palavra “Jeová”, o nome mais santo da Antiga Aliança de Deus com Israel, e Paulo não hesitava em aplicar a Jesus as passagens do Velho Testamento, que falam de Jeová.
Tendo em vista esta elevada significação da palavra “Senhor”, o Dr. B. B. Warfield é totalmente justificado, quando sugere que o título “Senhor” deve ser quase designado como o “nome trinitariano de Jesus Cristo” (1). Paulo ensina a doutrina da Trindade - conforme o Dr. Warfield aponta, só que ele usa uma terminologia de algum modo diferente, aquela à qual temos nos acostumado. Em vez de falar de “Deus Pai”, “Deus Filho” e “Deus Espírito Santo”, ele ensina a mesma doutrina que é ensinada, quando os homens usam esta outra terminologia. Esta Doutrina da Trindade inclui, é claro, a doutrina da divindade de Cristo.
A doutrina da Trindade está totalmente entremeada nas epístolas de Paulo. Não se trata, de modo algum, de algo isolado. Nem é preciso pesquisar para que ela seja encontrada. Ao contrário, não se pode avançar na teologia de Paulo sem a mesma. Abram as epístolas, quando bem desejarem, e ali irão encontrar sempre a afirmação da divindade de Cristo.
Tomemos, por exemplo, a maneira como Paulo fala de Cristo na abertura de todas as suas epístolas: “Graça e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”. Estas palavras em geral causam pouca impressão em nossas mentes. Nós mal as percebemos, simplesmente porque a elas nos acostumamos. Elas nunca estão ausentes nas epístolas de Paulo, porque estão totalmente de acordo com o que ele escreve, quando se refere a Cristo. Contudo, são as palavras mais admiráveis! Imaginem que se diga isto a respeito de outro homem que tenha existido - digamos sobre o maior dos reformadores, ou do homem mais santo entre os santos: “Graça e paz da parte de Deus nosso Pai, e de Martinho Lutero”, ou mesmo do Apóstolo Paulo, ou do Apóstolo João, o amado - seria imediatamente considerada uma blasfêmia. Então, quando Paulo diz: ““Graça e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”, ele o diz por uma única razão, ou seja, porque Jesus Cristo é Deus! E sendo Deus, e somente por esta razão, Ele pode ser conectado com Deus Pai, desta estupenda maneira, sendo separado de todas as coisas que foram criadas no universo.
A razão pela qual não estranhamos estas estupendas palavras, quando as lemos no início das epístolas de Paulo, é que elas estão exatamente de acordo com TUDO que Paulo ensina sobre Jesus. A razão pela qual elas não se apresentam como peças montanhosas, nas epístolas paulinas, não significa que não sejam elevadas, mas porque tudo o mais que Paulo fala de Cristo é igualmente elevado.
Portanto, desejo que vocês estudem algo mais sobre a maneira pela qual Paulo ensina a divindade de Cristo. Vejamos: o ensino de Paulo sobre este assunto não é encontrado apenas nesta ou naquela passagem. Nem em certo número de passagens, onde Paulo atribui honra divina e glória a Cristo - não importa quantas vezes vocês possam encontrar essas passagens. Não. Paulo ensina a divindade de Cristo a partir do mais íntimo do seu coração e através de sua própria vida cristã.
Qual era a religião de Paulo? Precisamos saber a resposta a esta pergunta, porque ela tem um notável dom de revelação. Alguém, eu creio, disse que ele é o homem mais conhecido da antiguidade [N.T. - depois do Homem-Deus, Jesus Cristo, é claro]. Ele nos entrega o coração em suas epístolas. Ele não se mostra como um mestre acadêmico, mas como um homem de carne e osso, permitindo-nos conhecer as fontes mais íntimas de sua vida interior. Evidentemente, essas fontes de sua vida estavam na religião. Mas, ele nunca foi um homem intensamente religioso. Então, qual era a religião de Paulo? Ela é maravilhosamente apresentada nos documentos reveladores - suas epístolas? Sua religião consistia em ter fé em Deus, conforme a mesma fé que Jesus tinha em Deus? Será que Jesus foi para Paulo apenas um exemplo - apenas um pioneiro da vida religiosa, um homem que atingiu sua filiação com Deus, tendo inspirando outros homens a consegui-la?
Ora, algumas pessoas têm tentado ver as coisas desta maneira. Mas têm feito isto simplesmente para fechar os olhos ao que de fato existe nos documentos dos quais suas afirmações devem ser derivadas. Se vocês simplesmente fecharem o olhos, entendendo o que Paulo escreveu a seu bel prazer, estarão transformando-o num membro do que os homens chamam “a religião de Jesus”. Poderão estar transformando-o num homem, cuja religião teria consistido apenas de uma experiência religiosa, através da qual o próprio Jesus teria passado. Poderão estar transformando-o num homem, cuja religião consistia apenas de um esforço em ter a mesma fé em Deus que Jesus tinha.
Mas, no momento em que vocês deixarem de ser enganados em sua imaginação, por terem apenas algum conhecimento dos fatos; quando olharem Paulo, não como imaginam que ele deveria ter sido, poderão observar que a religião dele não consistia apenas de um esforço em ter a mesma fé em Deus que Jesus tinha, mas em ter fé em Cristo Jesus. Para ele, Jesus não era apenas um exemplo de fé, mas o objeto de sua fé. Para Paulo, Jesus era o exclusivo objeto de sua fé religiosa. Mas, o que isto significa?
Significa, meridianamente, que Paulo permanecia diante de Jesus não apenas conforme um discípulo permanece diante do seu mestre, mas conforme permanece um homem diante do seu Deus. A divindade de Cristo é o fundamento da vida de Paulo.
À luz deste fato, não nos surpreendemos ao ler o que Paulo escreveu, detalhadamente, a respeito de Cristo. Segundo ele, Cristo existiu desde a eternidade e era Aquele através de quem o mundo foi criado. Cristo veio ao mundo como um homem, mas não como os outros homens; Ele veio por vontade própria, num ato de maravilhosa condescendência e amor. Sua morte não foi apenas um nobre martírio, mas um ato de significação universal. Sua morte significou a redenção da ira e da maldição divina sobre uma grande multidão de homens de todas as nações. Após Sua morte, Cristo ressuscitou e está agora exaltado acima de todos os principados e poderes. Ele pertence, com o Pai, a uma categoria inteiramente distinta de todas as coisas criadas.
Vocês já se detiveram em pensar como é extraordinária esta doutrina de Paulo sobre a divindade de Cristo? Aqui temos Jesus, um homem que tinha vivido na Terra apenas durante alguns anos, antes de sofrer uma vergonhosa morte na Cruz. E aqui temos Paulo, um contemporâneo de Jesus, um íntimo associado aos Seus mais íntimos amigos, dando a Jesus os atributos mais elevados, enquanto se comporta diante dEle, sempre do mesmo modo como um homem se comporta diante de Deus. Vocês já ouviram falar de algo igual em toda a história da raça humana? Talvez pudessem ser tentados a responder: “sim”. Ou a dizer que não seria esta a primeira ou única vez na história em que um homem teria atribuído a si mesmo a divindade. Por exemplo, tem havido a deificação dos imperadores romanos e dos monarcas orientais.
Mas, será que vocês não vêem a tremenda diferença? Os que adoravam os imperadores romanos eram politeístas, isto é, acreditavam em muitos deuses. Portanto, nada havia de extraordinário em que eles cressem que mais um deus poderia ser acrescentado ao grande panteão dos deuses pagãos, com os quais a Terra era povoada. Por outro lado, Paulo era monoteísta. Ele acreditava em um só Deus, o Criador do Céu e da Terra. Paulo era um judeu e os judeus são monoteístas. Antes e depois de sua conversão a Cristo, a crença de Paulo em um só Deus era a exata razão de sua vida. De toda a sua alma, ele odiava até mesmo o pensamento de que qualquer outro pudesse ser chamado “Deus”, a não ser Jesus Cristo!
Paulo era monoteísta, criado numa raça de monoteístas; contudo, ele prestou a um dos seus contemporâneos, Jesus, as honras que somente a Deus pertenciam. Ele colocou em Cristo sua verdadeira fé religiosa e Lhe aplicou as passagens do Velho Testamento, que falam de Jeová, o Deus da aliança com Israel, o Único Deus verdadeiro, Criador de tudo que existe no universo.
Não! Em toda a história humana não existe uma coisa igual ao que Paulo atribuiu ao Homem Jesus Cristo. Não é de admirar que H. J. Holtzman, talvez o maior representante da descrença, no Século 19 e início do Século 20, tenha admitido que, no que se refere à deificação do homem Jesus, conforme ela aparece nas epístolas de Paulo, não existe paralelo algum em toda a história da raça humana religiosa.
Somente a ignorância pode explicar que alguém possa deixar de pensar sobre este fenômeno admirável. Os verdadeiros eruditos, pelo menos, ficam intrigados sobre o assunto.
Mas, até agora, não mencionei a coisa mais surpreendente de todas neste caso. O mais admirável não foi apenas que Paulo tivesse acreditado na divindade de Cristo, mas o fato de que ele nem mesmo argumentou sobre a mesma. Para ele, este assunto era definitivo. A respeito de outros itens houve debates, como por exemplo, na interpretação da Lei para se obter a salvação. Sobre isso os oponentes de Paulo apelaram a Pedro e aos apóstolos originais de Jesus contra Paulo. Mas, até mesmo aqui, o seu apelo foi em vão. Os apóstolos originais eram a favor de Paulo e contra os judaizantes. Mas, sobre a divindade de Cristo, nem mesmo os judaizantes fizeram contestação alguma. [N.T. - Aqui em Terê, um ex-pastor pentecostal abriu uma sinagoga, fantasia-se e se autodenomina “rabino”, tendo proibido que esta tradutora entre em sua sinagoga. A verdade é que ele nunca deve ter lido as epístolas de Paulo e, se as leu, obviamente não as entendeu.]
Os amigos mais íntimos de Jesus, aqueles que andaram com Ele, quando se encontrava na Terra, tinham a mesma visão de Paulo a respeito de Jesus. Este Jesus exaltado ao trono de Deus o Pai, não na geração seguinte, mas em Sua própria geração, é o mesmo da visão que Paulo mostrou em suas epistolas, ou seja, que Jesus Cristo é Deus!
Quem nega a fidelidade da descrição dos evangelhos sobre Jesus jamais poderia entender a teologia de Paulo. As pessoas devem acolher as descrições, conforme elas surgem, para que tudo fique bem claro. Os dois grandes testemunhos sobre Cristo - os evangelhos e as epístolas de Paulo - conduzem ao mesmo resultado. E, no final de tudo, encontramos o Salvador de nossas almas.

“The Testimony of Paul to Christ”
http://www.the-highway.com/deityTOC_Machen.html
Tradução e adaptação de Mary Schultze, em 05/01/2011. www.maryschultze.com

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